Uma história sobre homens barbudos e as ciências sociais...

- Sabes meu velho? Chamei-te porque acho que só tu me podes salvar num momento como este. Estou a menos de 24 horas de um exame de ciências sociais e ainda não consegui encaixar os conceitos sobre um monte de coisas na cabeça. Acho que só tu, nessa tua criatividade meio louca, podes ajudar-me com isto.

- Por onde queres começar, meu caro? Vamos a isso...

- Pelo início. Como surgiram as ciências sociais? O que é isso das ciências sociais? Explica-me tudo como se eu não soubesse mesmo nada.

- Conheces ao menos, o gajo barbudo da teoria da evolução das espécies? O Darwin? 

- Sim, conheço. Estou familiarizado com o Darwinismo.

- Bem, por essa altura as ciências naturais estavam a contribuir com este tipo de conhecimento evolutivo, e os métodos científicos começavam a solidificar-se enquanto modo de entender o mundo. Isso influenciou a emergência do aparecimento de mais tipos de ciências, entre ciências naturais como a própria psicologia, assim como as ciências sociais que foram influenciadas também pela necessidade de entendimento da porra do impacto que toda esta cena dos contextos e construções sociais em que vivemos, tem efeito no modo como o mundo muda, como as pessoas vivem e evoluem, como as sociedades se constroem e avançam, e toda a cena da relação entre o próprio homem e a sociedade. O barbudo do Comte, percebendo a influência que a Revolução Francesa e a Revolução Industrial tiveram na forma como a sociedade se restruturara, quis perceber que fenómenos estavam associados a essas mudanças sociais que ocorrem e fundou a Sociologia, como uma espécie de Física Social. 

- Fala-me um pouco mais de Comte.

- Comte, como te disse, era um barbudo filósofo francês, que cunhou a Sociologia. Ele quis substituir os juízos de valor baseados em crenças, pelos juízos de facto, na interpretação dos fenómenos, já que o que a sua sociologia pretendia atingir era um estado positivo do saber, que permitia registar os factos pela observação e estabelecer relações objetivas entre esses fatos, levando a um conhecimento empírico. Antes da sua sociologia, todas as outras propostas estavam baseadas, para ele, em dois tipos de conhecimento mais primitivos.

- E quais eram esses dois tipos de conhecimento que ele considerava mais primitivos?

- Bem, o que ele chamou de estado Teológico do conhecimento, baseado no porquê e no para quê, tentando encontrar uma explicação fantástica, imaginária, com argumentos transcendentes, sobre os fenómenos. O objeto são as causas e vale sobretudo pelo valor das Perguntas, mas é muito limitado. O segundo, o que o barbudo do Comte chamou de estado Metafísico, que também é baseado no porquê e no para quê, mas parte para explicações por meio de conceitos abstratos inerentes ao ser humano e ao pensar do homem, que satisfaçam o nosso raciocínio e nos conformem de certo modo em relação aos fenómenos. O objeto também são as causas primárias e finais. Permite criar hipóteses que podem ser observadas ou declinadas no estado seguinte, o tal estado Positivista de Comte, baseado no como, e num "como" concreto ou não abstrato, em que o objeto são as relações invariáveis de sucessão e semelhança...

- Bem, acho que até aqui estou ok. Fala-me um pouco de como Saint-Simom  pode ter influenciado o Comte. 

- Bem, ao que parece o Comte era discípulo do barbudo do Saint-Simom, e foi dele a principal influência para o filósofo francês propugnar a produção industrial e a meritocracia, estabelecendo uma relação direta entre mérito e poder, em detrimento da agricultura e do privilégio de classes. Ambos chegam ao consenso de que os fenómenos sociais obedecem a leis, a que estes barbudos chamaram de princípios reguladores.  Assim, o Positivismo surge no encalço do Cientificismo, definindo esses princípios reguladores do mundo. É considerado o primeiro pensamento sociológico sistemático porque define um objeto, estabelece conceitos e adota um método, com o fim de gerar conhecimento para explicar o mundo físico e social, e daí ele definir a Sociologia como Física Social.

- Ah, boa, começo a entender a ligação das coisas. É o que ele chamava de uma Filosofia Positiva, no seu curso, certo?

 

- Exatamente. Inclusive, a sua primeira grande lição no curso de Filosofia Positiva, o Comte propõe que fez a descoberta de uma lei fundamental. Ele afirma, que essa lei fundamental é que cada ramo dos nossos conhecimentos, seja ele qual for, passou, passa ou passará pelos três estados que falei anteriormente, o estado teológico ou imaginário, o estado metafísico ou abstrato, e por fim ao estado ao qual ele propunha com a sua Filosofia Positiva, propondo assim que a filosofia rompesse com um passado essencialmente construído a partir de abstrações metafísicas, ainda dominadas pelas orientações de ordem teológica, de modo a acompanhar a janela criada pela Revolução Científica, para evoluir para o terceiro estágio do conhecimento.  

- Então o gajo quis romper com esse tipo de conhecimento, porque era um modo da própria filosofia evoluir, à semelhança das ciências da época, é isso?

- Exatamente! Assim, para o barbudo do Comte, a mais alta ambição do Positivismo ou da Filosofia Positiva é descobrir as leis dos fenómenos. 

- Ok, voltando um pouco atrás. Falaste da influência do Darwinismo, e eu fiquei na dúvida se o Darwin só influenciou no avanço das ciências naturais e na consequência isso ter criado também a necessidade de se criarem ciências sociais para explicar também os fenómenos externos à natureza, ou se também influenciou o próprio pensamento dentro das ciências sociais. Podes esclarecer-me?

- Na verdade, isso leva-nos ao barbudo do Spencer, que era um admirador do trabalho do barbudo do Darwin, e quis aplicas as leis da evolução na sociedade. 

- Ah, boa. Conta-me mais sobre esse Spencer, o novo barbudo da história.

- Então, esse maluco do Spencer defendia que a Sociedade deveria ser considerada como um ser vivo, super orgânico, e que como tal não difere muito dos seres vivos e das leis que se aplicam à sua evolução.

- E por que raio o maluco dizia que a sociedade era um ser orgânico?

- Porque segundo ele, a sociedade era uma coisa, e sendo uma coisa, só podia ser uma coisa orgânica ou não orgânica, e uma vez que é constituída de organismos, então ela mesma não pode ser não orgânica. Sendo um todo constituído de partes vivas, não pode assemelhar-se a todos sem vida. 

- Ok, entendo o que ele quer dizer...

- Para o barbudo do Spencer, todos os seres vivos passam por processos que vão de graus de menor complexidade, caracterizados pela homogeneidade e simplicidade, para estados mais complexos, caracterizados por estruturas crescentes em heterogeneidade e complexidade. A sociedade não era exceção e também tinha evoluída de mais primitiva ou simples, para mais evoluída ou complexa, e continuaria a prosseguir nesse caminho da diferenciação das estruturas, como é definido na sua Teoria do Funcionalismo. 

- Podes falar-me um pouco mais da Teoria do Funcionalismo?

- A Teoria do Funcionalismo defende que com a diferenciação das estruturas há também uma diferenciação progressiva das funções dessas estruturas, e que esse tipo de evolução é algo que não acontece com agregados inorgânicos, mas acontece com os agregados orgânicos e com a própria sociedade. Nesta teoria, as funções das estruturas que compõem os organismos afetam-se entre si, sendo a reciprocidade, a característica comum mais significativa. Outro conceito importante desta teoria é que as unidades que constituem o todo têm também vida e um grau considerável de autonomia em relação ao todo, e que a vida do todo é totalmente diversa da vida de cada uma das suas unidades. 

- Poxa, difícil de absorver...

- Não, se pensares que a Teoria Funcionalista é a Teoria das Funções das Estruturas, que diz que essas funções agem em reciprocidade no que respeita a se afetarem mutuamente e que isso afeta o todo, mas as partes que constituem essas estruturas e o todo conseguem manter um determinado nível de interdependência entre si, apesar de se afetarem, e que quanto mais diferenciação de estruturas, também maior tendência a existir uma diferenciação das funções disponíveis oferecidas pelas estruturas, promovendo a evolução. Pensa que por exemplo, o homem tem um papel na sociedade, a sociedade tem um papel com o homem, as estruturas criadas pelo homem mantém a sociedade e a sociedade promove o homem, e apesar de se afetarem, o homem e a sociedade mantém um determinado nível de interdependência, e ambos evoluem em conjunto, conforme as próprias estruturas criadas pelo homem também se tornam mais diferenciadas e adquirem novas funções que afetam a sociedade e o homem. 

- Ok, penso que agora ficou.

- Mas eu lembro-me que o professor na aula, falou que o Spencer relatava uma diferença fundamental entre qualquer outro organismo e a sociedade, que seria que um organismo forma um Todo Concreto e a Sociedade forma um Todo Discreto. O que isso realmente quer

dizer?

- O que ele queria dizer com isso, é que num organismo vivo, a consciência está concentrada numa única parte do agregado, enquanto na sociedade está espalhada por todo o agregado, sendo que todas as unidades que compõem esse agregado têm a possibilidade de se sentirem felizes ou infelizes. Infere assim, que o bem estar do agregado, separado das partes que o constituem, não é uma finalidade que se deva procurar atingir, concluindo que a sociedade existe para benefício dos elementos que a constituem e não o contrário. 

- Ah boa. Discuti isso com uns colegas, o Jorge e a Diana, e achei esse assunto super interessante. Mesmo que acreditemos que a  sociedade deve servir o indivíduo, temos que a sociedade é uma entidade abstrata constituída pelos grupos e pelos indivíduos que constituem esses grupos.  Assim, para que essa sociedade se aperfeiçoe em servir os indivíduos, é necessário que os indivíduos se aperfeiçoem em melhorar a sociedade, e por isso, servi-la, num determinado contexto, e por isso poderia ser perigoso concordar totalmente com esta afirmação do Spencer, pois poderia levar-nos a uma inércia que poderia levar à morte da sociedade, do modo como a conhecemos.

 

 

- Certo, concordo absolutamente, mas ainda assim, para existir uma razão plausível para a existência da sociedade, é necessário que consideremos que, tal como defendia Spencer, essa razão é a da sociedade servir ao ser humano, ou seja, para benefício dos elementos que a constituem, ou de outro modo não haverá propriamente uma razão que justifique a sua existência.  Mas sim, é mesmo como disseste, a sociedade seria como uma planta que dá o fruto que pretendemos colher, e a qualidade do fruto, que é a planta a servir o indivíduo, depende da qualidade como tratamos a planta, ou seja, o indivíduo a servir a planta, tornando-as interdependentes na qualidade como que se desenvolvem – o indivíduo e a planta (sociedade).

- Sim, exato. Então, por falar em plantas, o método de Spencer não se distinguia dos métodos das ciências naturais, certo?

- Certo, Spencer defendia que se deveriam empregar as leis da Biologia para investigar sobre a sociedade e que assim não deveriam existir diferenças metodológicas no estudo da Natureza e no estudo da sociedade. Ideia esta com que o barbudo do Comte discordava. Estou a imaginar o Spencer e o Comte a discutirem isto num bar, enquanto bebem uma cerveja, e o Comte a dizer para o Spencer: "Não concordo nada com essa tua ideia de que a Sociologia deve ser um instrumento dinâmico ao serviço da reforma/evolução Social. Para mim, a metodologia da sociologia deve iniciar-se no estudo a partir das leis, com base na estática social e na dinâmica social".

- Como assim, o que isso quer dizer?

- Para o Comte, a estática social refere-se ao estudo de cada elemento das estruturas e sua ordem, enquanto a dinâmica social se refere ao estudo e análise do movimento social e do progresso. 

- Ok, entendi. 

- No entanto, o Comte e o Spencer também concordaram em muitas coisas, como por exemplo em verem o Positivismo como modo de encontrar as leis invariantes do ambiente social e em concordarem que a sociedade é marcada pela evolução rumo ao progresso. Além disso, ambos tiram da biologia os conceitos de estrutura (ordem) e função (progresso). 

- Se pudesses resumir onde eles não estavam muito de acordo, eu também agradecia. 

- Bem,  o próprio Spencer considerou essas diferenças e resumiu-as, dizendo que Comte tinha um propósito subjetivo enquanto ele tinha um propósito objetivo, e que ao contrário de Comte para quem as ideias governam o mundo e tem interesse na evolução das ideias e em explicar consistentemente o progresso das concepções humanas, o próprio Spencer já estava mais interessado em focar-se na evolução estrutural e funcional do sistema e em dar uma explicação do progresso do mundo exterior. Ainda nas palavras de Spencer, enquanto Comte pretende descrever a autêntica e necessária filiação das ideias, esforçando-se por entender a génese do conhecimento que temos da natureza, já ele pretende descrever a autêntica e necessária filiação das coisas e esforça-se por interpretar os fenómenos que constituem a natureza. Spencer, fez ele mesmo, questão de diferenciar o seu trabalho do de Comte, apesar de considerar o trabalho deste essencial, mas Spencer estava preocupado em focar-se noutros objetos de não eram do mesmo foco dos estudos de Comte.

- Então, e quando entra o próximo barbudo da história?

- Bem, podemos falar dele agora. Quem nunca viu as barbas de Karl Marx, o fundador do Partido Comunista?  Mas o manifesto do partido comunista, que criou com Engels é só a ponta do Iceberg no que diz respeito a Marx. Antes disso, é importante conheceres o que é o conceito de Materialismo Histórico de Marx.

- E o que é?

- Tal como as próprias palavras indicam, trata-se de analisar historicamente o modo como a sociedade se foi organizando materialmente, ou seja, economicamente, para compreender as causas de desenvolvimento e de mudanças na sociedade humana, pelos meios como os seres humanos produzem e respondem coletivamente às necessidades da vida, bem como pelos confrontos que decorrem entre diferentes classes sociais como resultado da exploração do homem pelo homem.

- Marx, foi então, um duro crítico do capitalismo.

- Sim. Marx contextualizou as suas visões no contexto da segunda revolução industrial, onde a divisão entre os patrões, a chamada burguesia, e o proletariado, se fazia notar de forma muito evidente. Marx propõe então uma teoria económica, centrada em problemas da época e de elevada crítica à burguesia, defendendo que o capitalismo levava a três tipos de alienação.

- Três tipos de alienação? Como assim?

- A primeira alienação provocada pelo capitalismo, segundo Marx, o pai do comunismo, é de que o homem se separa da sua essência/natureza, que é aquilo que o distingue das máquinas. A segunda alienação é que o homem se separa do que produz, uma vez que o que produz não é dele nem para ele, mas sim de outros e para os outros. A terceira alienação, é que os trabalhadores acabam por ter entre si uma relação alheada, pois não pois não se reconhecem como parte do mesmo destino. 

- Boa, entendi. Então, mas havendo uma distinção das classes sociais, então é suposto que ambas as classes tenham objetivos opostos? 

- Sim, Marx descreve-as como classes antagónicas, sendo que a burguesia surge como dona dos meios de produção cujo interesse é aumentar constantemente os lucros e o proletariado surge em posição de ter de oferecer o seu trabalho em troca de um salário. Assim, apesar de surgirem em posições antagónicas, elas neste sistema, também dependem uma da outra para sobreviverem, sendo interdependentes. No entanto, a posição antagónica tem força para criar uma luta de classes, que para Marx, por enquanto a Burguesia estaria a levar a melhor, mas que sendo esta luta de classes o próprio motor da história e da sua mudança, o proletariado acabaria por levar a melhor no final. Marx tinha crença de que a vitória do Proletariado seria inevitável e realça o quanto o Burguês necessita do Proletariado para manter a sua riqueza e que essa dependência poderia ser a chave que abriria portas a essa mudança significativa do lugar onde o poder se encontrava naquela época.

- Outra característica de Marx, é que ele era um revolucionário, certo? É isso que está na base do seu comunismo, ou estou a dizer alguma asneira?

- Sim, ele era um revolucionário, e distingue-se precisamente de Comte e Spencer, porque na visão dele, o importante para a filosofia tem sido compreender o mundo, e limitou-se a interpretar o mundo de diversas maneiras, mas o importante mesmo, para Marx, é transformar o mundo e não compreendê-lo apenas. Então cria as bases do comunismo e mais tarde escreve com Engels o manifesto do partido comunista, uma vez que o reconhecimento generalizado do poder do comunismo pelos seus opositores exigia uma exposição clara das suas ideias. Para Marx e Engels, a História da Humanidade é a História das Lutas de Classes, e assim, a própria burguesia teria o seu mérito na evolução histórica, pois teria abandonado ela mesmo, também, um estilo de sociedade, para impor outro. Assim, considerava que a Burguesia era produto do desenvolvimento, mas que o Proletariado faria o seu papel para ser criar o próximo produto do desenvolvimento, e daí considerar a sua vitória inevitável nesta nova luta de classes. 

 

- Então, numa coisa, os três barbudos, o Comte, o Spencer e o Marx, estão de acordo. Todos querem ultrapassar a filosofia pela ciência e adotam um modelo causalista e explicativo da realidade. 

 

- Sim, exato. E também, todos os três, partilham de um otimismo teleológico, ou seja, da ideia que estamos a evoluir. No entanto, Marx, ao contrário dos outros dois, importa-se também em transformar além de entender e explicar essa realidade. Marx, procura ainda as causas do desenvolvimento e das mudanças na própria sociedade humana e enfatiza a natureza contraditória da sociedade como fundamental para as revoluções e evoluções que surgem a partir dessas forças contraditórias. 

- Mas segundo sei, apesar dos três terem muitas ideias de como estudar a sociedade e de desde Comte já se empregar a palavra Sociologia, a verdade é que esta ainda não é considerada uma ciência por esta altura, certo?

- Sim, foi Durkheim quem cunhou a Sociologia como ciência, delimitando um objeto e uma metodologia que legitima essa ciência. 

- Durkheim, era mais um desses manos barbudos? E qual o objeto e metodologia que ele definiu?

- Sim, Durkheim era mais um desses barbudos inteligentes. Para ele, o objeto da sociologia são os Factos Sociais ou as Instituições, isto é, as maneiras de fazer ou pensar que são exteriores ao indivíduo, mas que exercem sobre ele, uma influência coerciva. Critica o postulado antropológico mantido pela Sociologia e defende que a matéria da vida social não se pode explicar por fatores puramente psicológicos e que a realidade social tem uma natureza própria, exterior ao indivíduo. Assim, criou novas regras para o método sociológico.

- E que regras foram essas?

- Em primeiro lugar, os factos sociais passam a ser tratados como coisas, sendo que esta ideia cria uma pré-disposição a uma atitude mental para tratar os factos sociais como coisas ignoradas, ou seja, o seu estudo deve partir do princípio que ignoramos todas as coisas que achamos que sabemos sobre elas, e que não podemos compreendê-las pela introspeção.

- Ou seja, ainda que os factos sociais sejam obra humana, não podemos conhecê-los interrogando-nos a nós mesmos, mas sim, colocando as interrogações sobre essas coisas. 

- Exato, e ele ainda acrescenta que a maior parte das instituições ou factos sociais - que para ele são a mesma coisa - são muito antigas, ou seja, já não são criações nossas, e não seria sensato acharmos que poderíamos entendê-las por nós mesmos, senão pelos factos apurados de pré-conceitos. Contudo, para Durkheim, a sociologia do seu tempo ainda está longe ainda está longe dessa maturidade intelectual que já pode ser verificada em algumas ciências naturais, dando como exemplo a Psicologia e os Behavioristas, que se concentraram na observação dos comportamentos, dando um passo além do introspecionismo de Wundt, o barbudo fundador da Psicologia enquanto ciência. 

- Podemos focar-nos em Durkheim? O que mais achas que é importante saber sobre ele?

- Bem, seria interessante debruçar-nos sobre o facto dele fundamentar a existência da sociedade na coesão social ou solidariedade, defendendo que a evolução social revela dois tipos de solidariedade.

- E que seriam...

- A primeira seria a solidariedade mecânica, comum nas sociedades primitivas e simples, fechadas e pequenas, compostas de membros intercambiáveis entre si, pois têm costumes e mentalidades semelhantes entre si no que respeita a crenças, ideais, valores, aspirações, etc. É uma solidariedade fundamentada na semelhança da sua consciência coletiva. A sobrevivência desse tipo de sociedade não tolera a dessemelhança, a originalidade, nem os particularismos de indivíduos e grupos. 

- E a segunda?

- O segundo tipo de solidariedade seria a solidariedade orgânica, que é comum na vinculação das sociedades modernas e complexas (grandes e com múltiplos propósitos), que resultam da divisão do trabalho e da divisão funcional (especialização), em que os membros são interdependentes entre si para a realização de diversas atividades. É fundamentada na consciência individual livre, na diversidade, implicando também maior autonomia. 

- Podes agora falar-me um pouco da relação do Durkheim com o tema do suicídio?

- Basicamente, o Durkheim definiu que existiam alguns factos sociais que podiam ser analisados, entre os quais estariam o suicídio, a educação, o parentesco, a moeda, o casamento, a língua, a religião, a organização política e basicamente todas as instituições que se representem nas interações quotidianas. A análise do suicídio mostra como Durkheim pretende analisar um ato individual com relação a elementos sociais.

- E que conclusões tirou ele dessa análise?

- Bem, ele discorreu que o suicídio varia na razão inversa do grau de integração do de integração nos grupos a que o indivíduo pertence. Examinando as estatísticas do suicídio, demonstrou que a taxa do suicídio estava associada a uma causa social, em vez de a uma causa individual, como seria previsível. Definiu assim, três tipos de suicídio. O primeiro, seria o suicídio egoísta, que é o mais comum em adultos de sociedades mais complexas, e não tanto nas sociedades mais simples, e que é consequência direta da falta de integração na sociedade. Para Durkheim, as sociedades complexas mantém uma independência dos indivíduos, ou seja, não têm uma dependência dos indivíduos que dê sentido à sua existência.

- E quais são os outros dois tipos de suicídio, além do Egoísta? 

- O segundo é o suicídio altruísta ou obrigatório, que surge como consequência de uma forte integração moral, em que o Eu não se pertence, confundindo-se com algo que não ele mesmo, em que o polo do seu comportamento está situado fora de si, num dos grupos de que faz parte. Já o terceiro tipo de suicídio descrito por Durkheim é o suicídio atómico, consequência da desorientação gerada por uma súbita fase, quer de crise, quer de prosperidade. 

- Quando aqueles tipos se suicidam em nome da religião, estaríamos a falar do suicídio altruísta ou obrigatório, certo?

- Sim, exato. Contudo, o mais importante é compreender que seja qual for o tipo de suicídio, há inerente um contexto social na sua causa. Mais tarde, no seu estudo sobre outro facto social, a educação, Durkheim afirmou que é a Educação a forma de educar o ser egoísta e anti-social que existe na criança. Através da educação da criança, a sociedade cria e reproduz as condições da sua própria existência. 

- Então, este barbudo, tal como os anteriores, também segue o propósito positivista dos autores anteriores, certo? Essa é a principal semelhança ente eles...

- Sim, a que mais se evidencia. Já no que respeita ao resto, Durkheim centra o seu estudo na análise dos factos sociais e não numa causa explicativa da evolução da sociedade. Difere ainda de Marx por focar na divisão social do trabalho em vez da divisão da sociedade em classes sociais ou em questões de solidariedade versus o conflito ou a reforma versus a revolução. A solidariedade de Durkheim alude à sociedade como diferente da soma das partes, à semelhança de Spencer quando afirmava que a sociedade "era uma coisa". 

- Contudo, para ele, mais importante que definir a sociedade como uma coisa, é tratar os factos sociais, também eles, como coisas.

- Boa!!! Vejo que apanhaste.

- Existe mais alguma influência sociológica realmente importante nesta génese das ciências sociais, nomeadamente da própria sociologia?

- Sim, existem muitos outros nomes como Hegel, por exemplo, mas acho que para este contexto, vale a pena falarmos de mais um barbudo, o Weber.

- Conheço esse nome da Psicologia. O tipo da teoria dos estímulos, juntamente com Fechner, certo?

- Exatamente. Weber interessou-se por vários assuntos, mas a relação entre o condicionamento do ambiente social e a subjetividade do homem foi notoriamente algo que lhe despertou a atenção. Essa é exatamente a novidade da sua proposta, a recuperação da subjetividade e a ideia de que apesar de condicionado, o homem não é pré-determinado pelo ambiente social. Esta premissa irá concentrar a sua atenção na ação social individual e não na estrutura, como faziam os autores positivistas anteriores. Ao contrário de Durkheim, não acredita que seja possível ser totalmente imparcial, já que o ser humano não consegue separar-se das suas vontades, desejos e gostos. 

- Então, o objeto de estudo proposto por Weber para a Sociologia eram as Ações Sociais, sendo que pretendia compreendê-las a partir do estudo das motivações/sentidos dos seus autores/agentes, é isso?

- Sim, e para isso dividiu as ações sociais em dois tipos. As irracionais e as racionais. Dentro das irracionais estão as ações sociais afetivas, movidas por sentimentos, e as tradicionais, movidas pelos costumes, hábitos e cotidiano. Dentro das racionais, estão as ações com relação a fins que queremos atingir e as movidas por valores. Para estudar as ações sociais, propunha a compreensão interpretativa, com base em duas etapas. Uma primeira etapa que era a compreensão atual do sentido visado de um ato, e uma segunda etapa que era a compreensão explicativa do contexto do sentido. Ou seja, a primeira estabelece hipóteses por via racional ou por empatia vivencial acerca do sentido subjetivamente mentalizado, e a segunda demonstra as conexões casuais e históricas entre esses sentidos e o desenrolar da história, com recurso à construção de um "tipo ideal" de motivação racional ou irracional.

- O que é isso de "um tipo ideal" de motivação racional ou irracional? Tem a ver com a ação social racional e a irracional?

- Sim, está tudo ligado. Basicamente um tipo de motivação racional, é quando se age por motivos socialmente partilhados ou por um fim, levando às ações sociais racionais, enquanto um tipo de motivação irracional é quando se age por motivos de tradição, costume ou sentimento, tal como tínhamos visto para as ações sociais irracionais. Os "tipos ideais" seriam como quadros mentais criados pelo cientista que acentuam deliberadamente certos traços do objeto pesquisado e apontam caminho para a formação de hipóteses que auxiliam na compreensão da complexidade e diversidade de elementos da realidade social.

Contudo, cada compreensão será apenas e sempre uma hipótese causal particularmente evidente, que será necessário controlar/comprovar com o desenrolar efetivo da ação.

- Tal como Marx, Weber também se interessou em estudar sobre o Capitalismo, certo?

- Sim, certíssimo. Ele fez um estudo que procurou encontrar o sentido do espírito capitalista dentro da ética protestante, na sua ideia de trabalhar e reprimir o consumo. Ambos, espírito capitalista e ética protestante, colocam o dever como tábua de salvação, e portanto como um fim. Para perceber estas questões, Weber recorre a uma micro-análise, ao contrário de Durkheim, que se foca numa macro-perspetiva. 

- Bem, mas nem só de influências sociológicas vive a génese das ciências sociais, pelo que percebi, algumas influências da antropologia foram igualmente importantes para definir o rumo da história das ciências sociais. Podemos abordar alguns deles?

- Sim, claro. Podemos começar pelo sobrinho do Durkheim, o barbudo do Mauss, que além de sociólogo, também era antropólogo, considerado mesmo o pai da Antropologia Francesa. Este gajo propõe o Facto Social Total como objeto de estudo das ciência sociais, distinguindo-se do seu tio ao propor estudar a totalidade imanente aos vínculos que os homens estabelecem entre si. Para ele, a compreensão da sociedade exige atender à vida concreta dos homens que a integram. O Facto Social Total apresenta-se com um caracter tridimensional que só tem lugar no indivíduo. Assim, o facto social total deve ser compreendido como uma coisa objetiva, que faz parte integrante da apreensão subjetiva do observador. 

- Então, enquanto para o Tio Durkheim o Facto Social eram coisas exteriores ao individuo, para o sobrinho Mauss, o Facto Social Total eram coisas imanentes aos homens e aos vínculos que estes têm entre si, formando a tal estrutura tridimensional que toma lugar no individuo: Homem, Vinculo, Sociedade. 

- Boa! É exatamente isso. 

- Fala-me um pouco do estudo de Mauss sobre a dádiva, fiquei com a impressão que é algo importante para o exame. 

- Marcel Mauss fez um estudo sobre as trocas no seu "Ensaio sobre a Dádiva", no qual  define uma teoria em que existe um tripé relativo à dádiva, que fundamenta as nossas relações, e que comporta os seguintes comportamentos: Dar, Receber e Retribuir. Ou seja, quando alguém dá alguma coisa, a pessoa sente-se impulsionada a retribuir, que por sua vez, ao retribuir, abre um novo ciclo de dádiva e retribuição. Desse ponto de vista, o que se troca, não são apenas objetos, mas também as próprias pessoas. Seja qual for a troca a ocorrer, material ou imaterial (favores, por exemplo), a verdadeira troca que está a ocorrer é a da gratidão, da cortesia, do respeito, do carácter, enfim, em resumo, da pessoa. Para Mauss, essa relação acontece entre pessoas, mas também entre pessoas e instituições. 

- Que mais outros autores da antropologia vamos abordar?

- Podemos falar agora, um pouco do Mallinowsky, o barbudo que é considerado o fundador da escola funcionalista e também da Antropologia Social. O Funcionalismo, na Antropologia estuda as instituições ou respostas culturais e sociais que satisfazem as necessidades dos indivíduos, com o objetivo de explicar as ações humanas segundo a função que desempenham no sistema cultural, não no sentido de descrever o "como" dos fatos culturais, mas em explicar a sua conexão funcional, o seu "porquê". Para o autor, entende-se o sistema cultural como a mediação entre as necessidades humanas e a natureza, e em que ambas estão integradas nesse sistema. 

- Foi também ele que fundou o trabalho de campo, certo?

- Foi um dos fundadores, juntamente com Franz Boas, e a sua principal contribuição para a Antropologia é precisamente o desenvolvimento de um novo método de investigação de campo, cuja origem remonta à sua intensa pesquisa na Austrália, com o povo Mailu e com os nativos das ilhas Trobiand. Assim, propõe uma metodologia para o trabalho do etnógrafo por três vias. Um, buscar a organização da tribo e  anatomia da sua cultura. Dois, inserir as rotinas diárias, as conversas informais, as inimizades e outras impoderables da vida real. Três, atender às formas típicas de pensar e sentir, o que corresponde, para Mallinowsky, às instituições e à cultura de uma sociedade. Esta metodologia, complementava-se com o Diário de Campo, uma técnica que recomendava para prender o "ponto de vista" indígena. 

- Que tipo de coisas ele estudava, com os indígenas?

- Estudou coisas como o Kula, que era um ritual de trocas de onde ele podia compreender como emergem nessas relações de troca, o poder, os mitos e os aspetos económicos. Também estudou a relação da proibição do incesto com o surgimento da cultura, uma vez que sendo proibido, obriga à procura de relações fora do meio familiar restrito e a se estabelecerem regras de relação entre grupos, emergindo assim a cultura. Além do Kula e da Proibição do Incesto, Mallinowsky também se debruçou em observar no campo, as teorias psicanalistas da sexualidade. 

- Que diferença há do Funcionalismo do Mallinowsky, para o estrutural-funcionalismo? São duas coisas muito diferentes?

- Bem, não podemos falar do Estrutural-Funcionalismo sem falar do próximo barbudo, o Radcliffe-Brown. Radcliffe Brown fez imensas pesquisas de campo nas ilhas Andaman e em outros locais, e com isso propôs a sua ideia de Estrutural Funcionalismo, bem como o método comparativo. Para ele, cada sociedade estudada era como uma totalidade, cujas partes eram interligadas e funcionavam de um modo mecânico para manter a estabilidade social. Assim, o estrutural funcionalismo em antropologia, estuda a sociedade humana nas seguintes dimensões: morfologia (estrutura), fisiologia (funções ou instituições) e processo de mudança da própria ordem social. 

- Então, para Radcliffe Brown, o que são instituições? 

- Para ele, instituições são como modos padronizados de conduta que constituem o mecanismo pelo qual a estrutura social -  que é uma rede de relações sociais - mantém a existência e continuidade próprias. Assim, pretende estudar as funções das instituições sociais dentro de um todo social. 

- E sobre o método comparativo?

- Radcliffe-Brown  comparava sociedades com conchas, no sentido que conchas e sociedades possuem uma forma estrutural e que é essa forma estrutural que as ciências sociais devem estudar, usando para o efeito, o método comparativo. O método comparativo teria como objetivo, formular leis que oferecessem explicações precisas dos fenómenos socioculturais, abstraindo a forma social de um determinado número de sociedades, e comparando-as, o que constituía um fundamento da linguagem científica, à semelhança do que acontecia com as ciências naturais. 

- E por fim, temos o Estruturalismo do Lévi-Strauss. O que me podes dizer deste último barbudo da história e sobre a sua noção de Estruturalismo?

- Eu diria que Lévi-Strauss, sendo considerado o pai da Antropologia Estuturalista na década de 50, é um dos maiores intelectuais do século XX. Segundo Choza, com Lévi-Strauss, a antropologia sociocultural entra no campo da antropologia filosófica. Lévi-Stauss traz todo um novo pensamento para a sua época, pois não concordava com a divisão entre civilizados e selvagens ou a divisão entre superiores e inferiores, além de possuir uma visão ambientalista radical. 

- Ele também se debruça sobre o assunto cultura de um modo mais profundo que outros autores, certo?

- Sim, para Lévi-Strauss, a natureza impõe uma universalidade interna por hereditariedade biológica, enquanto a cultura é como uma universalidade exterior por força da lei da tradição, sendo que o objetivo da antropologia seria estudar o modo como se articulam natureza e cultura - como na regra da proibição do incesto, já anteriormente abordada por Mallinowsky.  Para Lévi-Strauss, a Humanidade está fora e acima da Cultura, uma vez que as diferenças culturais acabam por ser diluídas na semelhança (relativismo naturalista). Estas diferentes culturas são como organizações sistemáticas com base numa estrutura anterior e interior (a estrutura das estruturas). 

- Bem, acho que o fundamental foi visto, preciso agora de passar um olho nos resumos do livro Raça e História do Lévi-Strauss, que também sai no exame, mas sobre esta parte dos autores barbudos, acho que estou muito mais ciente das suas contribuições para a génese das ciências sociais. 

- Boa sorte e vai dormir, que o sol já nasceu!

- Obrigado por passares a noite acordado comigo à volta disto. É provável que me tenhas salvo!

- Não precisas de agradecer, estarei ao dispor sempre que necessitares, afinal sem ti não teria vida, fruto que sou da tua imaginação. Um abraço!!!

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